Seria trágico se não fosse cômico. Quem nunca escreveu frases clichês, que atire a primeira pedra. Tentei deletar isso aqui, juro. Mas aconteceu uma coisa estranha: minhas mãos começaram a tremer, tanto, que acabei deramando o suco todo no teclado do computador. Não pude. Vai entender. E olha que eu até imagino: "Oi, meu nome é Laura", "Oooooooi Laura!" (em coro), "Então, gente... eu tô aqui, nem sei porque, saca... é que eu tenho esse víc... quer dizer, vício é uma palavra muito forte, não acham? Vício, eu hein! Já disse: quando eu quiser eu páro." Ô se páro.
Muitos poemas perdi
pensando: "depois escrevo",
"agora estou almoçando",
ou "consertando a porta".
Assim, adiei-perdi
o melhor? de mim.
Certas coisas
não se podem deixar para depois,
e nisto incluo: frutos no galho,
mudanças sociais,
certas coxas e bocas
e esta manhã que se esvai.
Certas coisas
não se podem deixar pra depois.
O amor não se adia
como se adiam o imposto, a viagem, a utopia.
O desejo sabe o que quer,
detesta burocracia.
Feito depois, o amor
é murcha lembrança
do que, não-sendo, seria.
Certas coisas
não se podem deixar para depois.
Como o amor e as pessoas,
não se pode recuperar
- a poesia.
Rabiscado por Laurinha às 00:19.
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Domingo, Junho 15, 2008
Dar aulas está sendo uma experiência tão surpreendente!
Pra ser sincera, nunca me imaginei sendo professora. Tinha um certo preconceito bobo, não sei. Como se professor fosse um ser que não deu certo em outra profissão, hahaha, sei lá!
Mas olhando por outra perspectiva, percebi que não. Tudo bem, é claro que sempre há aquela espécie de professor que se arrasta todos os dias pra sala de aula, e pior, não faz a mínima questão de ser criativo, se esforçar... Talvez pela frustração de anos de trabalho não reconhecido, mal pago. Mas há, por outro lado, muita entrega. Amor mesmo. A maioria dos professores, pelo que observo nesse pouco tempo de profissão, trabalha com dedicação e carinho. Numa sala de quase 40 alunos, conhecem cada um, suas dificuldades, aflições, pontos fortes... Às vezes, até o histórico familiar.
Minha turminha é especial. E vai viver pra sempre na minha memória, eu acho. E é tão lindo perceber que eles me ensinam a cada dia coisas que eu havia esquecido. Seus olhares dissertam sobre a ingenuidade, a pureza, inocentes que são, ainda. A fala torta, distorce o sentido dos verbos, poesia pura, como já disse Manoel de Barros. Vivem cheios de perguntas, muitas vezes, nem tão preocupados assim com a resposta...
Só espero que eu não me canse, não seja devorada pelo sistema, que é cruel, sim, eu sei.
Veremos.
=]
::ouvindo: once - soundtrack::
Rabiscado por Laurinha às 11:20.
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Sábado, Maio 10, 2008
Sentada à beira da praia, pensava em como o cheiro do mar lhe era familiar.
Agora tinha mais uma mania: relembrar amores através do gosto salgado do mar.
O movimento das ondas, contínuo, interrupto, soava a seus ouvidos como a metáfora perfeita do amor.
Mas amor vem a ser o quê mesmo?
Preferia a vida assim: um desenrolar de dias atrás de dias.
Nenhuma palpitação mais acelerada, a não ser antes de pisar no palco.
Nenhuma preocupação grave, a não ser o vento que batia no rosto, de vez em quando, e a fazia voltar a acreditar em algo maior do que aquilo, pelo menos por alguns segundos.
Tinha medo. Será?
Como aquele mendigo do ponto de ônibus. Aquele que usava tênis Nike cor de prata e que gritava aos passantes: "Você já sofreu?". Teor alcoólico nas alturas, tá certo. Mas não deixa de atingir em cheio a sensibilidade da gente.
É claro que todo mundo já sofreu.
O mundo é feito de pequenas perdas diárias.
Perde-se o sono no meio da madrugada.
Perde-se a linha no trânsito.
Perde-se a fé na fila do hospital público.
Perde-se a sorte no jogo de cartas.
Perde-se o grana da mesada do pai.
Perde-se o amigo querido num asfalto qualquer.
Perde-se a ilusão da infância.
Ok, ok. O próximo texto já está previamente intitulado "pequenos ganhos diários".
::ouvindo: luiza possi - mulher segundo meu pai::
Rabiscado por Laurinha às 00:30.
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Sábado, Abril 26, 2008
Todo mundo deveria ler Adélia Prado.
Fato.
Rabiscado por Laurinha às 04:51.
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Terça-feira, Abril 22, 2008
Ninguém mais lê isso aqui, eu sei.
Fica sendo uma auto-confissão. Pronto.
Da primeira vez que amei, fui covarde. Era ainda uma menina, dessas que guardam papéis de bala na agenda, colecionam frases de efeito, batem a porta do quarto. Era uma tarde de março, com outra qualquer: a não ser pelo céu recheado de tons de roxo (o que depois vim a descobrir ser um bom presságio). Do gosto do primeiro amor, a gente nunca esquece. O meu demorou três anos pra se fazer degustar. Descobrimos o mundo ao mesmo tempo. Em todos os sentidos, de todos os jeitos: os primeiros acordes, as primeiras crises, o primeiro tapa, a primeira infração, o primeiro beijo, o primeito tudo ou nada, o primiro sim e o primeiro não.. Naquela época andávamos lado a lado, como quem pisa em folhas secas, mãos dadas, sentindo cada passo. Pena que nos esquecemos de guardar o caminho de volta...
Da segunda vez que amei, foi um choque. Outra tarde arroxeada de setembro. Eu, um paradoxo ambulante. Metade inconseqüência, metade objetivação. A cabeça fervilhava, e eu questionava minhas verdades até então inquestionáveis. Áries, ascendente em Leão. Cantarolávamos Los Hermanos, fechávamos os olhos, e quase tudo era possível. Não tínhamos ainda noção da nossa força, nem do risco que corríamos. Você era do mundo, e eu... eu mal conehcia a vida, pra falar a verdade. Sempre botei a maior banca, mas a real mesmo é que era só uma tenta tiva de acompanhar seu ritmo. Logo mais, me descobri Touro, ascendente em Câncer. Preciso falar mais alguma coisa?
Da terceira vez que amei, foi o acaso. Um acaso de abril. Ainda é meio real, como uma daquelas ilusões de ótica que você sabe que não existem, mas confudem sua percepção da realidade. E era tudo tão intenso - tanto, que doía, apertava o peito, angustiava os sentidos. Havia mais de você em mim do que o contrário. Eu sei. Mas havia a música, e eu só consegui decifrá-la longe. Do seu lado, era impossível. Você, que capturava toda a atenção e abafava o que eram os acordes dissonantes que compunham nossos dias, marcando a tensão de cada gesto, a latência de cada ferida, a imensidão de cada noite. A essa altura voltei a ser menina, como se antes de você, não soubesse ainda o significado das palavras. Aprendi, então, a ler. E o mundo perdeu o encanto.
::ouvindo: sons de carrilhões::
Rabiscado por Laurinha às 03:03.
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Segunda-feira, Outubro 08, 2007
Muito de manhã ainda.
Mais um ano acabando.
Um ano singular, eu diria.
Mas deixo as confissões para depois.
Só digo que o balanço, no final das contas, até que foi bom.
Entre perdas e danos, voltei a acreditar no amor.
::ouvindo: esotérico - gilberto gil::
Rabiscado por Laurinha às 07:00.
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Quarta-feira, Outubro 03, 2007
Voltei.
(Só dessa vez não vou prometer voltar de vez.
Ando formulando pormessas demais, difícil encará-las quando a noite vem).
Comprei um livro lindo de poesias.
Ando com a sensibilidade meio aflorada, vai entender.
Sinto um ímpeto de abraçar o mundo e, no minuto seguinte, o mundo já não cabe nem na palma da minha mão.
Dessas contradições que a vida tem.
Dezem que vêm das voltas que o mundo dá.
Vivo de saudades.
Me preencho de desencontros.
Só sei que ando só, e não me basto.
::ouvindo: o ciúme - gal costa::
Rabiscado por Laurinha às 09:59.
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Segunda-feira, Junho 25, 2007
Tenho necessidade de escrever.
A cabeça não pára, fervilha.
Como você acha que eu vou conseguir dormir assim?
Rabiscado por Laurinha às 18:03.
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Sábado, Abril 21, 2007
Estória de Cantador [Djavan - 1978]
Me apareceu
Tal rainha
Qual estrela
Pelo chão
No decote a "sianinha" E, a fileira de botão
Elogiei seu vestido
Pra dizer que era nobre
Feito um rei oferecido
Eu estou as suas ordens
As ordens foram servidas
Com muito amor e paixão
De mil juras prometidas
Surgiu um lindo varão
Na festa de "Deus Menino" Após dois anos de corte
Levou o menino à lida
Quase me levou à morte
O que sobrou de nós dois
Não dá nem pra repartir
O pior veio depois
Quando pude conferir
Pelos traços desse filho
Dá pra ler a minha estória
Um sofrer que vem de longe
Acobertado de glória